Se você acompanha o mercado do feijão, já percebeu que os preços mudaram de patamar em 2026. A saca do feijão carioca extra que saiu da lavoura irrigada do Vale do Araguaia nas últimas semanas foi negociada a R$ 380. No mesmo período do ano passado, esse valor era cerca de 60% menor. O que explica essa diferença e para onde os preços caminham daqui até dezembro?
O que Está Empurrando os Preços para Cima
O gatilho foi a escassez de feijão extra nas últimas semanas antes da colheita no Vale do Araguaia. O mercado vinha operando com pouca oferta de feijão de qualidade superior, aquele com nota 9,5 ou 10 e mais de 90% dos grãos na peneira 12. Quando os primeiros lotes colhidos chegaram, a demanda reprimida encontrou produto de altíssimo padrão e o preço refletiu isso imediatamente.
Na prática, lotes de 20 mil e 22 mil sacas saíram diretamente da lavoura já negociados na casa dos R$ 380. Para o consumidor final, esse feijão chega às gôndulas a R$ 10, R$ 11 ou até R$ 12 o quilo e, mesmo assim, encontra comprador, porque a qualidade visual e o padrão de grão justificam o preço para quem exige o produto certo na prateleira.
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O Que o Varejo Está Registrando
Um relatório de uma rede com 15 lojas no interior de São Paulo mostrou um recuo claro no consumo de feijão carioca. O preço elevado está limitando as compras. A única variedade que cresceu em volume foi o feijão preto, ainda que com base pequena.
O que está acontecendo é um ajuste natural: a oferta ainda está abaixo do que o mercado precisa, e o preço sobe até o ponto em que a demanda recua. Quando mais produto entrar na praça, os preços começam a ceder. A leitura do Ibraf é que esse equilíbrio vai aparecer ao longo de julho e agosto, com as cotações caindo gradualmente à medida que mais colheitas chegam ao mercado.
O Calendário de Colheita e o que Você Pode Esperar Mês a Mês
A concentração de oferta no meio do ano é um padrão histórico. Entre junho e julho, cerca de 50% a 60% da produção da safra irrigada do Vale do Araguaia é colhida. Isso cria uma janela de pressão nos preços que se repete todo ano.
Na sequência, novas lavouras vão sendo incorporadas:
- Julho: colheitas no noroeste de Minas Gerais e na região do Distrito Federal
- Agosto e setembro: início de lavouras irrigadas em outros estados, ainda em volume reduzido
- Novembro e dezembro: feijão do estado de São Paulo e fechamento da terceira safra carioca
O ponto de atenção para esse ano está no final do período. A terceira safra de feijão carioca deve ter volume menor do que em 2025. Esse déficit não vai aparecer agora. Vai ser percebido lá em novembro e dezembro, quando a oferta cai justamente na época em que a demanda começa a se recuperar.
Para Onde os Preços Devem Ir
| Período | Expectativa de Preço | Fator Principal |
|---|---|---|
| Julho 2026 | R$ 280 a R$ 300/saca | Pico de colheita no Araguaia e noroeste de MG |
| Agosto e setembro | Estabilização gradual | Entrada de novas regiões produtoras |
| Outubro e novembro | Alta | Redução da oferta da terceira safra carioca |
| Dezembro | Patamar mais elevado | Demanda de fim de ano com oferta restrita |
O cenário aponta para um fechamento de ano com preços superiores aos praticados agora. Produtores que conseguirem armazenar em câmaras frias têm perspectiva de capturar essa valorização no último trimestre, mas a decisão precisa levar em conta o custo do armazenamento e o nível de preço que será praticado em julho e agosto.
O Que Esperar do Feijão Preto e do Rajado
O feijão preto deve manter preços próximos ou levemente abaixo do carioca pelo menos até julho, talvez parte de agosto. Para quem compra para consumo próprio ou para revenda, ele é uma alternativa com boa aceitação.
Já o feijão rajado opera em torno de R$ 300 a saca agora, mas tem uma característica diferente: tem potencial de exportação e raramente é armazenado pelos produtores para negociação futura. O volume disponível é pequeno, e o mesmo vale para o feijão vermelho do tipo dark red. Todas as variedades apontam para valorização no último trimestre.
A Discrepância na Área Plantada e o Risco para o Mercado
Uma informação que ainda precisa ser confirmada no Vale do Araguaia é a relação entre grandes e pequenos produtores nessa safra. Os grandes agricultores ampliaram a área plantada, mas há indicações de que os menores não plantaram na mesma proporção, ou não plantaram de jeito nenhum.
Se a redução dos pequenos for significativa, o volume total da safra pode ser menor do que os grandes números dos grandes produtores sugerem. Pesquisadores que trabalham na região, como o responsável pelo desenvolvimento das variedades Dama e Maré, avaliam que esse recuo dos menores foi expressivo.
O que isso muda na prática? Se o volume colhido for menor do que o esperado, a queda de preços em julho pode ser menos intensa do que o histórico indicaria. Os R$ 280 a R$ 300 projetados podem não chegar tão fundo quanto em outros anos.
Venezuela: Uma Janela de Exportação que Ainda Depende do Tempo
O Brasil já chegou a exportar grandes volumes de feijão para a Venezuela, que nos anos de maior movimento importou até 150 mil toneladas por ano. O potencial continua existindo.
Uma visita técnica ao país, com representantes do Ministério das Relações Exteriores, da Apex e do Ministério da Agricultura, identificou que o principal obstáculo para retomar essas exportações é o sistema bancário. A Venezuela foi excluída do sistema Swift, o que impede transferências internacionais em dólar. A perspectiva levantada nas conversas com diretores de bancos locais é de que esse retorno ao Swift aconteça ainda em 2026.
O terremoto recente que atingiu a parte mais habitada do país tende a atrasar esse processo. O impacto econômico de uma catástrofe desse porte exige tempo de recuperação, e o apetite de investidores externos por ativos no país vai diminuir no curto prazo. Para o mercado do feijão brasileiro, a Venezuela continua sendo um destino de exportação com potencial real, mas provavelmente não em 2026.
O que Você Deve Fazer Agora
Se você é produtor com feijão em mãos no Vale do Araguaia ou regiões próximas, a decisão entre vender agora ou armazenar passa por uma conta simples:
- Qual o custo mensal da câmara fria por saca?
- Qual o preço que você está recebendo agora?
- Qual a sua estimativa de preço em outubro e novembro?
Se a diferença entre o preço atual e o esperado no final do ano cobrir o custo de armazenamento com folga, guardar faz sentido. Se a diferença for pequena, vender agora e trabalhar o capital em outra frente pode ser mais inteligente.
Para quem opera no varejo ou na distribuição, o cenário indica que trabalhar com estoque mais enxuto agora e comprar mais perto do quarto trimestre pode não ser a melhor estratégia, considerando que a oferta carioca tende a apertar justamente quando a demanda volta a subir.
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FAQ – Perguntas Frequentes
P: Por que o preço do feijão carioca está tão alto em 2026?
R: A safra irrigada do Vale do Araguaia chegou com qualidade elevada e oferta ainda concentrada. O mercado vinha com pouca disponibilidade de feijão extra, e os primeiros lotes foram negociados a R$ 380 a saca, cerca de 60% acima do mesmo período de 2025.
P: Quando o preço do feijão carioca deve cair?
R: A tendência é de queda ao longo de julho e agosto, à medida que mais colheitas chegam ao mercado no Araguaia, noroeste de Minas e região do DF. A expectativa é que a saca carioca recue para a faixa de R$ 280 a R$ 300 nesse período.
P: Vale a pena armazenar feijão em câmara fria agora?
R: Depende do custo de armazenamento e da diferença esperada entre o preço atual e o preço projetado para outubro e novembro. Com a terceira safra carioca menor neste ano, a tendência é de valorização no último trimestre, o que pode compensar o custo de guardar o produto.
P: O feijão preto é uma boa alternativa ao carioca neste momento?
R: Sim. O feijão preto deve manter preços próximos ou levemente abaixo do carioca até pelo menos julho. Para consumidores e distribuidores que aceitam a substituição, ele é a alternativa mais viável no momento.
P: O Brasil vai voltar a exportar feijão para a Venezuela?
R: O potencial existe. A Venezuela já foi um dos maiores importadores do feijão brasileiro, chegando a 150 mil toneladas por ano. O principal obstáculo hoje é o sistema bancário do país, excluído do Swift. A expectativa era de normalização ainda em 2026, mas o terremoto recente deve atrasar esse processo.




