Chuva irregular, calor alto e uma praga difícil de controlar formam o desafio de quem planta algodão no semiárido. Pesquisadores da Embrapa levaram a ExpoCariri 2026, realizada em 30 de outubro, no Ceará, um conjunto de respostas que une bioinsumos, controle biológico e drones. Parte delas já funciona no campo. Outras ainda estão em laboratório.
Os dois desafios do algodão no semiárido
O primeiro é o clima. A irregularidade das chuvas, somada às altas temperaturas, castiga a lavoura. O segundo é a pressão de pragas, em especial o bicudo-do-algodoeiro. As soluções apresentadas foram pensadas para propriedades de diferentes portes, e o evento deixou claro quais estão em estágio de pesquisa e quais já viraram ferramenta de manejo.
| Tecnologia | Em que fase está |
|---|---|
| Bactérias da Caatinga (projeto CaatÁgua) | Casa de vegetação, antes dos testes em campo |
| Fungo Metarhizium contra o bicudo | Laboratório, com previsão de 3 a 6 anos para novas soluções |
| Bactéria do produto Auras | Apresentada com resultados relatados em algodão |
| Drones para liberar inimigos naturais | Sistema em desenvolvimento e uso em pesquisa |
| Drones multiespectrais para monitoramento | Ferramenta de apoio ao manejo |
Bactérias da Caatinga contra a seca
O projeto CaatÁgua busca bactérias que ajudem as culturas a tolerar a falta de água. Ele é financiado pela Finep e reúne a Rede Borborema de Agroecologia e três unidades da Embrapa: Algodão, Recursos Genéticos e Biotecnologia, e Meio Ambiente.
Segundo o pesquisador Paulo Barroso, da Embrapa Algodão, a seleção parte de microrganismos associados a plantas da Caatinga, como cactos e os algodoeiros mocó e herbáceo. A busca se concentra nas raízes e na rizosfera, que é a região do solo influenciada diretamente por elas.
Das centenas de bactérias isoladas, dezenas deram resultados promissores em testes com tomateiro. Sob estresse hídrico moderado, as plantas inoculadas mantiveram o turgor, ou seja, ficaram firmes, enquanto as não inoculadas murcharam. Os resultados ainda são experimentais. A seleção segue em casa de vegetação e vai orientar testes em outras culturas e no campo.
Quer ver como o projeto começou? Leia Embrapa lança CaatÁgua para enfrentar a seca no semiárido com bioestimulantes e controle de pragas.
Fungo mata mais de 80% dos bicudos em laboratório
Outra pesquisa testa fungos entomopatogênicos, que infectam e matam insetos. Em laboratório, isolados de Metarhizium da coleção da Embrapa causaram mortalidade acima de 80% nos bicudos expostos. O próximo desafio é criar um jeito de fazer o fungo encostar na praga nas condições reais de cultivo.
Cuidado com a leitura desse número. Resultado de laboratório não é a mesma coisa que eficácia de um produto aplicado na lavoura. Barroso lembrou que um bioinsumo precisa passar por testes de desempenho, segurança e registro. A expectativa para novas soluções contra o bicudo, incluindo as biológicas, é de três a seis anos.
Bioinsumos e produção on-farm: o que exige cuidado
Para Barroso, a biodiversidade do solo e das plantas oferece muitos recursos. Há bactérias que fixam nitrogênio, fungos que combatem insetos e organismos que liberam nutrientes. O foco é aproveitar essas funções junto com as demais práticas de manejo.
Ele também alertou sobre a produção de bioinsumos na própria fazenda, a chamada on-farm. O processo pede conhecimento técnico, estrutura e controle de qualidade para evitar contaminações e garantir a concentração certa dos organismos. Se você pensa em comprar ou produzir bioinsumos, vale ler Defensivos biológicos: como escolher produtos de qualidade e evitar prejuízo na lavoura e Mercado de bioinsumos no Brasil.
Auras: bactéria para preservar produtividade sob estresse
A programação também apresentou o Auras, desenvolvido pela Embrapa em parceria com a NOOA. Segundo Lucas Carvalho, representante da empresa, a tecnologia usa a bactéria Priestia aryabhattai, antes chamada de Bacillus aryabhattai. Ela foi isolada em estudos sobre a adaptação de plantas da Caatinga à seca.
A associação com as raízes pode favorecer o desenvolvimento radicular, a oferta de nutrientes e as respostas da planta ao estresse. No algodão, foi relatada uma proteção produtiva média de cerca de 18 arrobas por hectare em condições de estresse. Esse número vem dos resultados mostrados no evento e não garante o mesmo efeito em toda lavoura. A proposta é somar a bactéria ao melhoramento genético e ao manejo, não substituí-los.
Como segurar o bicudo: vazio sanitário e refúgio
O pesquisador Fábio Aquino de Albuquerque, da Embrapa Algodão, lembrou que o manejo integrado de pragas combina medidas culturais, biológicas e químicas. Entre as preventivas, ele destacou o vazio sanitário e a eliminação de rebrotas e plantas de algodão que sobram na área. Elas servem de alimento e abrigo para o bicudo entre uma safra e outra.
Um experimento simulou a falta de vazio sanitário, com rebrota de plantas podadas. A infestação inicial chegou a cerca de 40% na primeira amostragem.
Ele também pediu preservar predadores e parasitoides, os insetos que atacam a praga de forma natural. O controle químico deve seguir o monitoramento e o nível de controle, sem aplicações preventivas em sequência que prejudiquem os insetos benéficos.
Outro ponto de atenção é a resistência. Usar cultivares Bt de forma intensa e sem refúgio adequado aumenta a pressão sobre as lagartas. Em algumas regiões, o pesquisador relatou a necessidade de cinco a oito aplicações de inseticida para manejar essas pragas, sobretudo a Spodoptera.
Drones soltam inimigos naturais e mapeiam a lavoura
Tardelly de Andrade Lima, doutorando da Embrapa, apresentou um sistema que usa drones para espalhar organismos do controle biológico. Pequenos tubetes guardam os insetos benéficos e os liberam durante o voo. Segundo ele, o equipamento cobre um hectare em cerca de oito minutos, o que reduz a caminhada das equipes pela área.
Entre os agentes citados estão parasitoides usados contra o bicudo e espécies de Trichogramma, que atacam lagartas. As liberações precisam acompanhar o desenvolvimento da cultura e o aparecimento das pragas.
Os drones multiespectrais também ajudam no monitoramento. Eles geram mapas com índices de vegetação, como NDVI e NDRE, que mostram diferenças de vigor e apontam pontos com crescimento irregular. As imagens, porém, não dizem qual é a causa do problema. A confirmação exige avaliação no campo. Para saber como começar com drones, veja Uso de drones na agricultura: aplicações, benefícios e como começar.
Pesquisa também olha para a agricultura familiar
A ExpoCariri discutiu como baixar custos e adaptar as soluções às pequenas propriedades. Lima apresentou estudos para trocar materiais importados, usados na criação de parasitoides, por opções mais baratas e reutilizáveis. Em um experimento, uma equipe de duas pessoas produziu cerca de 2.500 parasitoides por semana.
Barroso informou que o Campo Experimental da Embrapa em Barbalha deve virar polo de testes e validação para a agricultura familiar, com foco em seca e bicudo. A ideia é aproximar pesquisa e produtor e reduzir a dependência de aplicações seguidas de inseticida.
O que você pode fazer hoje com algodão no semiárido
- Respeite o vazio sanitário e elimine rebrotas e plantas remanescentes de algodão.
- Monitore a lavoura e só aplique inseticida quando o nível de controle for atingido.
- Preserve predadores e parasitoides evitando aplicações preventivas em sequência.
- Mantenha refúgio adequado ao usar cultivares Bt.
- Acompanhe os bioinsumos em teste e confira sempre o registro antes de comprar.
- Se usar drone com imagens, confirme o problema no campo antes de agir.
Para entender o momento do mercado antes de investir em manejo, leia Algodão: mercado brasileiro travado, NY dispara 4% e EUA aumentam plantio.
Quer acompanhar o que há de novo em manejo e tecnologia para a sua lavoura? Continue lendo o Portal da Agroindústria e fique por dentro do que a pesquisa traz para o algodão no semiárido.
FAQ – Perguntas Frequentes
P: O que a Embrapa apresentou na ExpoCariri 2026 sobre algodão?
R: Pesquisas com bactérias da Caatinga para tolerar a seca, fungos contra o bicudo, a tecnologia Auras e drones para liberar inimigos naturais e monitorar a lavoura.
P: O fungo Metarhizium já pode ser usado contra o bicudo?
R: Ainda não. Em laboratório ele causou mortalidade acima de 80%, mas falta desenvolver a forma de aplicação no campo, além das etapas de segurança e registro. A previsão é de três a seis anos.
P: O que é vazio sanitário e por que ele importa?
R: É o período sem algodão vivo na área. Ele evita que rebrotas e plantas remanescentes sirvam de alimento e abrigo para o bicudo entre as safras.
P: Quanto um drone cobre ao liberar inimigos naturais?
R: Segundo o pesquisador, o sistema apresentado cobre cerca de um hectare em aproximadamente oito minutos.
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