Safra 2026/27: El Niño, atraso da chuva e quando plantar

El Niño na safra 2026/27: chuva, plantio e riscos

Você olha para o solo seco, ouve falar em “super El Niño” e fica sem saber se compra o insumo agora ou espera. A dúvida é legítima, porque a decisão de plantio de 2026 mexe com custo, prazo e risco de replantio.

Na live da Girassol Agrícola, o professor Luiz Carlos Molion apresentou uma leitura bem diferente da que circula nas redes. Segundo ele, o El Niño na safra 2026/27 existe como água quente no Pacífico, mas a atmosfera não respondeu a esse aquecimento. Sem essa resposta, a seca severa não se confirma. O atraso da chuva, esse sim, é real.

Veja também:

Super El Niño na Safra 2026/27: O Que Você Precisa Planejar Agora Para Não Perder Depois

Por que o clima gera tanta dúvida agora

Os números dos últimos meses explicam a ansiedade. Entre 3 de abril e 29 de setembro, a chuva acumulada ficou em 125 mm, quando a média para o período é de 160 mm. É um desvio negativo de 22%.

Em boa parte do país o déficit foi maior, entre 25% e 50% abaixo do esperado. As exceções ficaram no Sul e em parte do Sudeste. A última chuva relevante caiu no fim de abril, e as pancadas de setembro vieram de frentes frias, sem regularidade.

Na prática, você está começando a safra 2026/27 com solo seco e um período sem chuva que parece longo demais. Isso pesa na decisão, mas não é o mesmo que um fenômeno de seca anunciado para o ano inteiro.

Veja também:

Safra 2026/27: por que revisar o custo por hectare agora pode salvar sua margem

O que o professor chama de El Niño e por que a diferença importa

O termo nasceu entre pescadores do Peru e do Chile, que notavam águas mais quentes perto do Natal. Por definição, El Niño é só isso: água quente.

O que derruba a chuva no Brasil central é o ENOS, a combinação do oceano quente com uma resposta da atmosfera. Essa resposta se mede pela diferença de pressão entre Taiti e Darwin, na Austrália. Quando o acoplamento acontece, a pressão cai sobre a água aquecida e as nuvens se formam ali.

O que as imagens de satélite mostram agora é o oposto. A chuva está a cerca de 1000 km ao norte da água quente, e a pressão sobre ela está alta. Para o professor, isso é a prova de que a atmosfera ainda não entrou no jogo.

De onde veio essa água quente

A análise do professor aponta para um terremoto raso de magnitude 7,5, ocorrido em 20 de abril a nordeste do Japão. Ele acredita que o abalo gerou uma onda interna no oceano e espalhou água quente que estava acumulada no Pacífico Norte.

Há um indício que ele considera forte. Uma onda de Kelvin costuma levar mais de 90 dias para cruzar o Pacífico, e essa levou metade do tempo. Passados cinco meses, a atmosfera continua sem reagir.

O que dizem os modelos internacionais

A previsão divulgada em 20 de setembro pelo IRI, instituto de pesquisa climática ligado à Universidade de Columbia, indica 100% de probabilidade de águas acima de 0,5 °C em outubro. Ela usa 18 modelos dinâmicos e 12 estatísticos.

O professor faz duas ressalvas. A primeira é que a média móvel de três meses esconde oscilações de um mês para outro. A segunda é que os modelos têm dificuldade com o ciclo hidrológico, e chuva nos trópicos é justamente a variável que mais importa para você.

Por que a estação chuvosa vai atrasar

O Sol cruzou o Equador em 22 de setembro. Em teoria, a atmosfera responde ao aquecimento em cerca de 45 dias, e na prática a desestabilização pode vir entre 35 e 40 dias.

Existe também um freio externo. O Atlântico está quente, e as frentes frias que saem dos Estados Unidos carregam umidade rumo à África. As tempestades geradas lá criam ondas que chegam ao Caribe e ao norte da América do Sul. O ar sobe nessas regiões, perde a umidade e desce seco sobre o Brasil central.

O resultado, na leitura do professor, é um atraso de pelo menos quatro semanas na estação chuvosa do leste de Mato Grosso até o litoral, passando pelo oeste da Bahia. A regularização deve vir no início de novembro, com chuvas ainda manchadas.

O Atlântico deve seguir quente por mais um ano, até o fim de 2027 ou início de 2028. A tendência de longo prazo que ele aponta é de resfriamento global até meados da década de 2030.

Previsão de chuva por localidade

O professor não usa modelos para chuva. Ele usa a similaridade: escolhe um ano passado com clima global parecido e aplica a chuva daquele ano. Para 2026, o ano análogo foi 2007, e para o início de 2027, 2008. Os valores abaixo são acumulados do trimestre.

Localidade Out a dez 2026 Jan a mar 2027 Abr a jun 2027
Barreiras (BA) 260 mm, 35% abaixo da média 620 mm, 30% acima 140 mm, 50% acima
Jataí (GO) 530 mm, 15% abaixo 970 mm, 30% acima 270 mm, 55% acima
Sorriso (MT) 680 mm, em torno da média 830 mm, 10% acima 200 mm, em torno da média

O padrão que se repete é este: outubro fraco, novembro ainda abaixo da média, dezembro regularizando e o primeiro semestre de 2027 com chuva boa. No sul do Maranhão e no Piauí, o quadro é parecido, com atraso no começo e chuvas acima da média de janeiro a abril.

Se você tem registros de chuva da sua propriedade de 2007 e 2008, pode refazer a conta com o seu próprio histórico. Esses dados já carregam o microclima local, e isso deixa a previsão mais ajustada. O professor recomenda não voltar muito além desses anos, porque o clima global mudou de fase por volta de 2005.

Quando plantar sem aumentar o risco

O professor foi direto: agora não dá. O solo está seco, a radiação é intensa e há risco real de o plantio não vingar.

Ele lembra o caso de quem plantou após as chuvas de 3, 5 e 7 de setembro. A chuva parou, só voltou no fim do mês e o resultado foi prejuízo.

A janela que ele enxerga para arriscar é a segunda quinzena de outubro, especialmente depois do dia 20. A lógica é simples: a soja plantada nessa época chega ao período de reprodução com novembro já chovendo, mesmo que um pouco abaixo da média. Uma redução de 20% a 30% ainda deixa água suficiente para a planta.

Por que a chuva cai em um lugar e não no outro

Em Canarana (MT), caíram 120 mm em setembro, enquanto Marcelândia ficou 30 dias sem chuva. O professor explica que, nessa época, as chuvas se formam em células pequenas e localizadas. Em alguns casos, chove na porteira e não na sede. A topografia local também interfere.

O detalhe que faz diferença: não decida pela chuva do vizinho. Decida pelo seu pluviômetro e pela umidade do seu perfil de solo.

Veranico e manejo de água no solo

A previsão do professor para janeiro de 2027 é de pausas de no máximo duas semanas, sem veranico prolongado. Ele reconhece, porém, que veranico não se prevê, só se diagnostica quando começa. Estatisticamente, o risco maior fica entre janeiro e fevereiro.

Como você não controla a chuva, o caminho é controlar o solo. As medidas que ele citou:

  • Fazer o solo funcionar como caixa d’água, com manejo que favoreça a infiltração e evite que a água escorra.
  • Aprofundar o sistema radicular. O gesso agrícola, por ser mais solúvel que o calcário, leva cálcio e enxofre para camadas mais fundas, e a raiz acompanha.
  • Usar bactérias no solo, que ajudam na disponibilidade de água para as raízes.
  • Checar compactação a cerca de 10 a 15 cm de profundidade, comum em solos argilosos. Raiz superficial não aguenta três ou quatro semanas sem chuva.

Exemplo prático: se sua lavoura tem camada compactada, a soja pode parecer saudável por fora e secar rápido num intervalo de 15 dias sem chuva. Uma sondagem com trado antes do plantio custa pouco perto de um replantio.

O sorgo granífero como alternativa na safrinha

O professor lembrou que o milho é sensível e propôs reservar uma área para testar o sorgo granífero. A planta tem raiz que chega a 5 ou 6 metros de profundidade e, segundo ele, produz 100 sacas por hectare ou mais com cerca de 400 mm de chuva.

Para o etanol, a conversão também favorece o sorgo. O milho tem em média 45% de carboidrato, e o sorgo pode passar de 70%. Os Estados Unidos produzem cerca de 20 milhões de toneladas por ano, e o Brasil não chega a 7 milhões. Com o crescimento das usinas de etanol de grãos, a demanda tende a subir.

O cenário que pode valorizar o que você produz

Enquanto você lida com o atraso da chuva, a produção americana enfrenta problemas. O trigo de inverno teve 44% das lavouras em condição ruim, e 32% da área foi abandonada. O milho caiu de 67% para 56% de lavouras em boas condições entre junho e setembro. A soja foi de 65% para 58%, e o algodão, de 44% para 34%.

A China, por sua vez, deixará de subsidiar algodão com produtividade abaixo de 280 arrobas por hectare, e essas áreas irrigadas serão destinadas a alimentos. Na leitura do professor, o algodão tende a subir nos próximos anos, e soja e milho também podem se beneficiar. O raciocínio dele é que o Brasil é o único país com espaço real para ampliar produção.

O que fazer com essa informação

Pensando na rotina da sua propriedade, o quadro se resume assim:

  • Segure o plantio até a chuva se firmar, com a segunda quinzena de outubro como referência.
  • Monitore o seu próprio pluviômetro e a umidade do solo antes de liberar semente.
  • Trabalhe a estrutura do solo para a raiz descer mais.
  • Considere uma área de teste com sorgo na safrinha.
  • Acompanhe o mercado de grãos, que pode reagir às perdas americanas.

A previsão do professor é de safra 2026/27 com chuva boa a partir de dezembro. Ela depende da atmosfera continuar sem se acoplar ao Pacífico, e você ajusta o plano conforme as semanas passam.

Se você quer decisões mais seguras, comece levantando o histórico de chuva da sua área e compare com os anos de 2007 e 2008. Depois, volte ao Portal da Agroindústria para acompanhar as próximas análises sobre clima, plantio e mercado de grãos.

FAQ – Perguntas Frequentes

P: O El Niño de 2026 vai causar seca na safra de soja?

R: Na análise do professor Luiz Carlos Molion, não. Há água quente no Pacífico, mas a atmosfera não respondeu. Ele prevê atraso no início da chuva, com regularização a partir de dezembro e boa distribuição entre janeiro e abril.

P: Qual a diferença entre El Niño e ENOS?

R: El Niño é apenas o aquecimento das águas do Pacífico. O ENOS inclui também a resposta da atmosfera, medida pela diferença de pressão entre Taiti e Darwin. Só quando os dois se acoplam há impacto direto na chuva do Brasil.

P: Quando é seguro plantar soja em 2026?

R: Para o professor, não é seguro plantar agora. A segunda quinzena de outubro, principalmente depois do dia 20, é o momento em que você pode arriscar. O final de outubro oferece garantia maior de chuva.

P: Como reduzir o risco de veranico na lavoura?

R: Melhore a infiltração e o armazenamento de água no solo, use gesso agrícola para estimular raízes mais profundas e verifique compactação entre 10 e 15 cm. Raiz profunda explora mais volume de solo e segura a planta num período seco.

P: Como estimar a chuva da minha propriedade?

R: Use o método da similaridade. Pegue os registros de chuva de 2007 para o fim de 2026 e de 2008 para o início de 2027, e compare com a média local. Esses dados já incluem o microclima da sua área.

P: O sorgo granífero vale a pena na safrinha?

R: O professor sugere testar em uma área reservada. A planta tem raiz muito profunda, produz bem com cerca de 400 mm de chuva e rende mais carboidrato que o milho para etanol.

Fonte:

Girassol Agrícola (live com o professor Luiz Carlos Molion) | Live sobre clima 2026/2027 e El Niño

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *