A poucas semanas do início do plantio, o produtor brasileiro precisa lidar com uma notícia que pesa no planejamento: o El Niño muito forte está confirmado como cenário mais provável para a safra 2026/27. Segundo a atualização de setembro da NOAA, a agência americana que monitora o fenômeno, a chance de o evento atingir intensidade muito forte entre o outono e o inverno do Hemisfério Norte passa de 90%, período que coincide com a primavera e o verão brasileiros. A probabilidade de o fenômeno seguir ativo até o início da primavera de 2027 no Hemisfério Norte chega a 97%.
O termo “Super El Niño“, que vem circulando no mercado, não é uma classificação técnica oficial. Serve apenas como apelido para eventos de grande intensidade. O que realmente importa para quem planta é outra coisa: duração do fenômeno, pico de aquecimento do Pacífico e como a chuva vai se distribuir região por região.
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Cada região do Brasil enfrenta um risco diferente
Não existe receita única para lidar com El Niño, porque o efeito muda completamente dependendo de onde fica sua lavoura. No Sul, a tendência histórica é de mais chuva e mais frequência de precipitação, o que aumenta risco de solo encharcado, erosão, doença fúngica e dificuldade para plantar, pulverizar ou colher no momento certo.
Já no Norte, no Nordeste e em partes do Centro-Oeste e do Sudeste, o problema é o oposto: menos chuva e mais veranico. Isso compromete germinação, limita o crescimento das raízes e reduz o potencial produtivo em culturas de sequeiro, aquelas que dependem só da chuva para se desenvolver.
O Inmet reforça esse recado ao apontar que o excesso de umidade no Sul tende a atrapalhar plantio, tratos culturais e até a qualidade da colheita, enquanto nas áreas de estiagem a preocupação central passa a ser o abastecimento hídrico e o desenvolvimento das lavouras e pastagens.
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O fantasma de 2024 no Rio Grande do Sul
Quem acompanha o setor não esquece as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024, durante o ciclo anterior de El Niño. O fenômeno criou condições favoráveis para chuva acima da média na região, embora eventos extremos costumem resultar da combinação de vários fatores climáticos ao mesmo tempo, não de uma causa isolada.
O resultado daquele ano ficou registrado nos números: o valor da produção agrícola brasileira caiu 3,9%, fechando em R$ 783,2 bilhões, segundo o IBGE. Além da perda direta na lavoura, o período também trouxe atraso em operação de campo, dano em estrada e armazém, e custo logístico mais alto para escoar o que sobrou da produção.
| Região | Risco predominante | Efeito prático esperado |
|---|---|---|
| Sul | Excesso de chuva | Encharcamento, erosão, doença fúngica, atraso na colheita |
| Norte e Nordeste | Estiagem e veranico | Germinação comprometida, raiz limitada |
| Centro-Oeste e Sudeste | Irregularidade climática | Alternância entre períodos secos e chuvosos |
| Rio Grande do Sul (histórico 2024) | Chuva extrema | Perda direta de produção e dano em infraestrutura |
O risco que passa despercebido: a nutrição da planta
Existe um efeito do El Niño que costuma ficar fora do radar de quem só pensa em alagamento ou seca. Segundo Douglas Vaz Tostes, técnico nacional da GIROAgro, o clima extremo afeta diretamente a capacidade da planta de absorver nutriente, e isso acontece de duas formas opostas.
Em áreas de chuva excessiva, cresce o risco de lixiviação, quando o nutriente é levado para camadas mais profundas do solo e fica fora do alcance das raízes. Já nas áreas de estiagem, a falta de água reduz o transporte e a absorção do nutriente, e o sistema radicular menos desenvolvido diminui a capacidade da planta de buscar o que precisa no solo.
Na prática, isso significa que dois talhões vizinhos podem sofrer o mesmo tipo de perda de produtividade por motivos completamente diferentes, um por excesso e outro por falta de água, e a solução para cada um exige manejo específico.
Manejo nutricional vira ferramenta estratégica
Diante desse cenário, o planejamento nutricional deixa de ser item de rotina e passa a ocupar posição central na safra 2026/27. O objetivo não é apenas repor nutriente, mas fortalecer a capacidade da planta de resistir a período de excesso ou escassez de água.
Tostes destaca que tecnologia voltada para desenvolvimento radicular, eficiência fotossintética e equilíbrio nutricional ganha peso maior nesse contexto, e que entender a relação entre clima, solo e nutrição é o que separa quem protege o potencial produtivo de quem simplesmente reage ao problema depois que ele aparece.
Vale reforçar que não existe fórmula genérica aqui. O manejo precisa considerar análise de solo, histórico da área, cultura plantada e previsão climática regional, já que soluções padronizadas raramente funcionam para a diversidade de condições agrícolas do Brasil.
O que priorizar antes do plantio
Com o fenômeno projetado para ganhar força até o fim de 2026, alguns pontos merecem entrar no planejamento agora, antes que a janela de plantio se feche:
- Escolha da janela de plantio considerando o risco regional específico
- Escalonamento de operações para reduzir exposição a evento extremo
- Seleção de cultivar mais tolerante à condição climática prevista
- Drenagem de área sujeita a encharcamento no Sul
- Armazenamento de água em região com risco de estiagem
- Monitoramento reforçado de doença fúngica em áreas mais úmidas
O El Niño é um fenômeno natural recorrente, e sua confirmação como evento muito forte não permite prever de forma isolada onde e quando cada extremo vai acontecer. O que dá para fazer é se preparar com antecedência, e é isso que separa quem sai da safra com margem preservada de quem só lamenta a perda depois da colheita.
Continue acompanhando o Portal da Agroindústria para as próximas atualizações climáticas e o que elas significam para o planejamento da sua safra 2026/27.
FAQ – Perguntas Frequentes
P: O que significa El Niño muito forte para a safra 2026/27?
R: Significa maior chance de chuva excessiva no Sul e estiagem em partes do Norte, Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste, com probabilidade acima de 90% segundo a NOAA.
P: Super El Niño é uma classificação oficial?
R: Não. É um termo informal usado no mercado para descrever eventos de grande intensidade, sem correspondência técnica oficial.
P: Como o El Niño afeta a absorção de nutrientes pelas plantas?
R: Em área de chuva excessiva, o nutriente pode ser levado para camadas mais profundas do solo por lixiviação. Em área de estiagem, a falta de água reduz o transporte e a absorção do nutriente pela raiz.
P: O que o produtor pode fazer para reduzir o risco do El Niño na safra 2026/27?
R: Ajustar janela de plantio, escalonar operações, escolher cultivar mais tolerante, melhorar drenagem ou armazenamento de água conforme a região, e investir em manejo nutricional específico para cada talhão.
Fonte:
Portal do Agronegócio




