Os números do crédito rural em 2026 acenderam um alerta que já não dá para ignorar. A inadimplência no agronegócio brasileiro subiu de forma expressiva neste ano, e o movimento está forçando bancos, produtores e empresas da cadeia a repensar como avaliam a capacidade de pagamento de quem pega dinheiro emprestado.
No Banco do Brasil, a fatia das operações do agronegócio com atraso superior a 90 dias saltou de 3,16% no segundo trimestre de 2025 para 6,27% no mesmo período de 2026, praticamente o dobro em um ano. Na Caixa Econômica Federal, o salto foi ainda mais forte: de 7,02% em junho de 2025 para 20,74% em junho de 2026.
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Por que os bancos públicos concentram o pior do cenário
Esses dois bancos carregam boa parte da carteira de crédito rural do país, o que torna esse tipo de indicador um termômetro relevante para todo o setor. Quando o atraso acima de 90 dias praticamente dobra ou triplica em um ano, o efeito não fica restrito ao balanço da instituição financeira. Ele se espalha para o custo do próximo empréstimo, para a exigência de garantia e para a disposição do banco em renovar linha de crédito.
Se você depende de financiamento para custeio ou investimento, esse cenário tende a se traduzir em análise mais rigorosa na hora de contratar, mesmo que seu histórico individual esteja em dia.
| Instituição | 2º trimestre/2025 | 2º trimestre/2026 | Variação |
|---|---|---|---|
| Banco do Brasil | 3,16% | 6,27% | +3,11 p.p. |
| Caixa Econômica Federal | 7,02% | 20,74% | +13,72 p.p. |
MP 1.376 pode reestruturar até R$ 100 bilhões em dívidas
Paralelamente ao aumento da inadimplência, o governo já tem uma resposta em andamento. A Medida Provisória 1.376/2026 prevê programa de reestruturação de dívida rural, e a estimativa é de que até R$ 100 bilhões em operações da carteira possam se enquadrar nele.
Desse total, cerca de R$ 36,7 bilhões correspondem a operações já inadimplentes, e outros R$ 63,5 bilhões são operações que seguem adimplentes, mas que já passaram por renegociação ou prorrogação em algum momento. As instituições financeiras esperam que a medida melhore tanto a provisão contábil dos bancos quanto a pontualidade dos pagamentos nos próximos meses.
Se você está com dívida rural atrasada ou renegociada, vale conferir junto ao seu banco se a operação se enquadra nos critérios da MP, já que esse tipo de programa costuma ter janela específica para adesão.
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Por que analisar crédito no agro é mais difícil que em outros setores
A atividade rural tem uma característica que complica qualquer análise baseada só em foto do momento: a receita não entra de forma uniforme ao longo do ano. Ela se concentra em época de colheita e comercialização, enquanto a despesa com insumo, mão de obra e maquinário costuma acontecer meses antes.
Esse descompasso entre entrada e saída de recurso pode fazer um produtor parecer apertado financeiramente em determinado mês, mesmo estando saudável quando se olha o ciclo produtivo completo. É exatamente esse ponto cego que methods tradicionais de análise de crédito têm dificuldade de capturar.
Fluxo financeiro como peça complementar na análise
Para Ingrid Barth, fundadora e CEO da PilotIn, empresa especializada em inteligência de dados financeiros, o crescimento da inadimplência reforça que a análise de crédito precisa acompanhar a dinâmica real do mercado, especialmente num setor marcado por ciclo de produção, sazonalidade e oscilação de receita.
Segundo a executiva, observar como o dinheiro entra e sai da operação ao longo do tempo ajuda a complementar as informações que as instituições financeiras já usam tradicionalmente, sem substituir critério nenhum, apenas somando contexto à decisão.
Entre os pontos que essa análise de fluxo consegue captar estão:
- Período de maior entrada de recurso no ciclo produtivo
- Concentração de receita em determinada época do ano
- Despesa recorrente e sua distribuição ao longo dos meses
- Momento de maior pressão sobre o caixa
- Comportamento financeiro em diferentes fases da produção
- Capacidade real de gerar recurso para cumprir compromisso
O que isso muda na prática para quem busca crédito
A análise tradicional continua olhando histórico de operação, dado cadastral, garantia e demonstração financeira. A diferença é que esses critérios passam a ser combinados com dado de comportamento financeiro, o que tende a dar ao banco uma visão mais próxima da realidade de cada operação, incluindo cadeia inteira de fornecedor, revenda de insumo e empresa que depende de crédito para funcionar.
Barth também projeta que dado de transação bancária e indicador de comportamento financeiro devem ganhar peso crescente na gestão de crédito daqui para frente, já que quanto melhor a compreensão sobre a dinâmica financeira de uma operação, maior a qualidade da informação disponível para decidir.
O que fica de atenção para o produtor e para a empresa do agro
Diante de um cenário de inadimplência em alta, alguns cuidados ajudam a reduzir risco e melhorar posição na hora de negociar crédito:
- Organize seu histórico financeiro de forma que reflita o ciclo produtivo completo, não só um mês isolado
- Verifique se sua dívida em atraso ou renegociada se enquadra na MP 1.376/2026
- Antecipe conversa com o banco em período de aperto de caixa previsível, como entressafra
- Mantenha documentação e fluxo de caixa organizados para facilitar qualquer análise mais detalhada
Enquanto os números de atraso seguirem em trajetória de alta, a tendência é de análise cada vez mais criteriosa por parte das instituições financeiras. Quem se antecipa a essa mudança tende a enfrentar menos dificuldade na hora de renovar ou contratar novo crédito rural.
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FAQ – Perguntas Frequentes
P: Qual foi o aumento da inadimplência no agronegócio em 2026?
R: No Banco do Brasil, o atraso acima de 90 dias foi de 3,16% para 6,27% em um ano. Na Caixa Econômica Federal, subiu de 7,02% para 20,74% no mesmo período.
P: O que é a MP 1.376/2026?
R: É a Medida Provisória que prevê um programa de reestruturação de dívida rural, com estimativa de enquadrar até R$ 100 bilhões em operações da carteira de crédito do agronegócio.
P: Por que a análise de crédito no agronegócio é mais complexa?
R: Porque a receita se concentra em períodos específicos de colheita e comercialização, enquanto as despesas ocorrem meses antes, o que dificulta uma avaliação baseada apenas em um momento isolado.
P: O que é análise de fluxo financeiro no crédito rural?
R: É o acompanhamento da movimentação financeira ao longo do tempo, usado como informação complementar aos critérios tradicionais para entender melhor a capacidade real de pagamento de produtores e empresas.
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