O modelo que sustentou o crescimento da pecuária brasileira nas últimas décadas está prestes a mudar de direção. A pecuária de corte até 2040 deve deixar de lado a lógica de produzir cada vez mais volume e passar a se organizar em torno de eficiência, precisão e valor agregado, segundo projeção do pesquisador Guilherme Cunha Malafaia, da Embrapa Gado de Corte.
O tema será apresentado na palestra “O Futuro da Carne Bovina Brasileira: Visão 2040”, programada para 6 de outubro, em Chapecó (SC), durante o 5º Fórum Brasil Sul de Bovinocultura de Corte. O evento antecede o 15º Simpósio Brasil Sul de Bovinocultura de Leite, promovido pelo Núcleo Oeste de Médicos Veterinários e Zootecnistas.
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Um dos pontos centrais da projeção está na forma como o setor vai crescer daqui para frente. Segundo Malafaia, a área de pastagem no Brasil diminuiu cerca de 11% nas últimas duas décadas, enquanto a produtividade praticamente dobrou, aproximando-se de cinco arrobas por hectare ao ano.
Para 2040, a expectativa é de produção superior a 13 milhões de toneladas de carne bovina, com participação crescente de sistemas intensivos e confinados. Isso significa que o crescimento do setor vai depender cada vez menos de abrir nova área e cada vez mais da capacidade de extrair mais resultado da terra já em uso.
Genética, nutrição, recuperação de pastagem, integração de atividade, manejo e gestão devem ganhar peso direto na competitividade de cada sistema produtivo nesse cenário.
Do volume para o valor: a virada estrutural da pecuária
Na avaliação de Malafaia, a pecuária brasileira caminha para abandonar de forma gradual o modelo concentrado em grande volume e avançar em direção a sistema baseado em eficiência, precisão, qualidade e diferenciação. Segundo o pesquisador, essa mudança representa uma transição estrutural decisiva, que deve consolidar uma pecuária de valor e precisão no lugar da pecuária de escala pura.
Essa transformação não fica restrita à porteira da fazenda. Ela atravessa toda a cadeia produtiva, do insumo e genética usados na propriedade até o processamento industrial, a comercialização e o comportamento do consumidor final. A capacidade de medir resultado e usar informação para orientar decisão deve se tornar cada vez mais central para produtor e empresa.
Status sanitário abre espaço para produto de maior valor
O reconhecimento do Brasil, em 2025, como país livre de febre aftosa sem vacinação abriu novas possibilidades de acesso a mercado internacional e pode ajudar a ampliar a negociação de produto com maior valor agregado.
Segundo a projeção de Malafaia, a exportação pode representar mais de 40% da produção brasileira de carne bovina até 2040. Nesse cenário, competir no mercado externo deixa de depender apenas da capacidade de oferecer grande volume. Origem, sanidade, sustentabilidade, bem-estar animal, qualidade e comprovação das práticas utilizadas na produção devem ganhar peso crescente nas negociações com comprador internacional.
| Indicador | Situação atual | Projeção para 2040 |
|---|---|---|
| Área de pastagem | -11% nas últimas 2 décadas | Sem expansão relevante |
| Produtividade por hectare | ~5 arrobas/ano | Tendência de alta contínua |
| Produção de carne bovina | — | Mais de 13 milhões de toneladas |
| Participação da exportação | — | Mais de 40% da produção |
Rastreabilidade vai muito além do controle sanitário
A identificação individual do animal deve concentrar cada vez mais informação sobre origem, genética, alimentação, manejo e indicador ambiental. Com o avanço da digitalização, esse dado pode acompanhar o produto por diferentes etapas da cadeia produtiva e funcionar como mecanismo de diferenciação comercial.
Para o produtor, isso representa maior necessidade de registrar informação e manter processo de gestão capaz de comprovar as características atribuídas ao animal e à carne. Quem não organizar esse tipo de dado hoje pode ter dificuldade para acessar mercados mais exigentes no futuro.
Sustentabilidade entra na conta da produtividade
A agenda ambiental também deve ocupar espaço central nessa transformação. Entre as alternativas destacadas por Malafaia estão a expansão dos sistemas de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) e a recuperação de pastagem degradada.
Essas estratégias podem melhorar a eficiência da área produtiva e combinar aumento de produção com redução de impacto ambiental. Programa relacionado à agricultura de baixo carbono também pode estimular a transformação de área de pastagem em sistema mais produtivo e eficiente.
Gestão profissional vira exigência, não diferencial
A transformação tecnológica e produtiva deve elevar também a exigência sobre a gestão da propriedade rural. Na visão de Malafaia, o produtor vai precisar administrar a atividade cada vez mais com lógica empresarial, acompanhando custo, indicador produtivo, planejamento, investimento e resultado econômico.
Essa tendência deve ampliar a diferenciação entre sistemas de produção. Enquanto parte das propriedades vai priorizar escala e eficiência de custo, outras devem direcionar a produção para mercado especializado, com certificação, origem, sustentabilidade e característica específica valorizada pelo consumidor.
IA e automação chegam ao campo, inclusive na pequena propriedade
A automação de processo, a inteligência artificial, o monitoramento digital do animal e o uso de dado devem ganhar espaço nas propriedades à medida que cresce a necessidade de eficiência e a dificuldade de encontrar mão de obra especializada.
Nesse ambiente, o profissional rural vai precisar incorporar nova competência para operar equipamento, interpretar indicador e usar informação na tomada de decisão. A digitalização não deve ficar restrita ao grande empreendimento. A tendência é que ferramenta tecnológica passe a integrar diferentes etapas da produção pecuária, independente do porte da operação.
Como começar a se preparar para essa transição
Diante desse horizonte de mudança, alguns passos ajudam o produtor a se posicionar com antecedência:
- Organize registro de origem, genética e manejo do rebanho desde já
- Avalie oportunidade de recuperação de pastagem degradada na sua propriedade
- Trate a gestão da fazenda com indicador financeiro e produtivo claro, não só intuição
- Acompanhe a evolução das exigências sanitárias e de sustentabilidade dos mercados compradores
- Considere investimento gradual em tecnologia de monitoramento, mesmo em pequena escala
Para a pecuária brasileira, o horizonte até 2040 aponta para uma mudança que vai além de produzir mais carne. A eficiência com que cada hectare, animal e informação forem utilizados deve pesar cada vez mais na competitividade de toda a cadeia.
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FAQ – Perguntas Frequentes
P: Como a pecuária de corte brasileira deve mudar até 2040?
R: A tendência é migrar de um modelo baseado em volume para um sistema centrado em eficiência, precisão, qualidade e valor agregado, segundo projeção da Embrapa.
P: Qual a expectativa de produção de carne bovina no Brasil até 2040?
R: A projeção aponta produção superior a 13 milhões de toneladas, com participação crescente de sistemas intensivos e confinados.
P: A exportação de carne bovina deve crescer até 2040?
R: Sim. A projeção indica que a exportação pode representar mais de 40% da produção brasileira de carne bovina até esse ano.
P: Por que a rastreabilidade vai ganhar mais importância na pecuária?
R: Porque a identificação individual do animal deve concentrar informação sobre origem, genética, alimentação e manejo, servindo como mecanismo de diferenciação comercial em mercados mais exigentes.
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