Enquanto a genética do boi avançou décadas nas últimas gerações, boa parte do pasto brasileiro ficou parada no tempo. É esse o alerta que abre a discussão sobre novas forrageiras, apresentado pelo pesquisador Marcelo Ayres, da Embrapa Cerrados, durante a 34ª Expoabra, em Brasília. Segundo os dados apresentados, cultivares modernas podem elevar o ganho econômico por hectare em até 20% frente aos materiais mais antigos.
Ayres reforça que forrageira e pastagem hoje são tecnologia de ponta, no mesmo nível de uma cultivar de soja ou de um sistema de automação industrial. Tratar o pasto apenas como capim, segundo ele, é o que mantém boa parte da pecuária brasileira presa a um potencial que já poderia ter sido destravado.
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O peso do pasto na pecuária brasileira
O Brasil tem o segundo maior rebanho bovino do mundo, ocupa a segunda posição em produção de carne e lidera as exportações do produto. Em 2025, o Valor Bruto da Produção Agropecuária somou R$ 1,3 trilhão, e cerca de R$ 250 bilhões desse total vieram da pecuária.
O país reúne 160,5 milhões de hectares de pastagem, dos quais 62,7 milhões estão no Cerrado. E o número que mais chama atenção é este: 80,14% dos bovinos abatidos no Brasil no ano passado foram terminados a pasto, segundo dados da Abiec. É essa característica que sustenta o que Ayres chama de “boi verde”, carne produzida majoritariamente em sistema de pastejo, um diferencial que o Brasil carrega no mercado internacional.
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Por que o produtor ainda escolhe capim pelo preço da semente
Aqui está o ponto central do problema. A semente representa apenas cerca de 10% do custo total de implantação de uma pastagem, considerando todas as operações envolvidas. Mesmo assim, a escolha da cultivar costuma ser decidida principalmente pelo valor da semente, não pelo potencial produtivo do material.
O resultado prático desse hábito é que aproximadamente 80% das cultivares hoje em uso na pecuária brasileira foram desenvolvidas entre as décadas de 1970 e 1990. Na avaliação de Ayres, isso significa manejar o pasto com a lógica de um boi que já não existe mais, já que a genética animal evoluiu de forma muito mais rápida que a escolha forrageira.
As cultivares que a Embrapa recomenda hoje
Em parceria com a Unipasto, a Embrapa desenvolve materiais voltados para resistência a pragas e doenças, melhor disponibilidade de alimento na seca e desempenho mais estável entre as estações do ano. Ayres compara a evolução de uma cultivar de forrageira à de um carro moderno ou à automação industrial, no sentido de que envolve tanto avanço tecnológico quanto qualquer outra área do agro.
Entre as opções apresentadas estão BRS Carinás, BRS Paiaguás, BRS Zuri, BRS Tamani, BRS Sarandi e BRS Quênia, cada uma indicada para um tipo específico de solo, clima e sistema produtivo.
BRS Carinás, lançada em abril, é um híbrido de Brachiaria decumbens que evolui a tradicional Basilisk. Tolera solo ácido e pobre em fósforo, cobre o terreno mais rápido, reduz espaço para invasora e chega a 13% e 14% de proteína na forragem. O ganho de peso pode alcançar 13 arrobas por hectare ao ano.
BRS Paiaguás, uma Brachiaria brizantha, foi pensada para estender o período de pastejo entre a estação chuvosa e a seca. Durante a seca, chegou a apresentar ganho médio diário por animal cerca de 80% superior ao da BRS Piatã, com taxa de lotação aproximadamente 40% maior.
BRS Zuri e BRS Tamani, ambas Panicum maximum, são indicadas para sistema intensivo com pastejo rotacionado. A BRS Zuri responde bem à adubação nitrogenada e resiste a manchas foliares que afetam cultivares antigas como Tanzânia-1 e Mombaça. Em comparação com o capim Massai, apresentou ganho médio diário e taxa de lotação entre 10% e 15% superiores.
BRS Sarandi, um Andropogon gayanus lançado em 2022, é indicado para solo de menor fertilidade, pedregoso ou arenoso, em sistemas de cria e recria. Ayres recomenda seu uso em 20% a 30% da área da propriedade, principalmente nos trechos mais rasos e menos férteis.
O que cada cultivar representa em dinheiro
Os números apresentados por Ayres traduzem a diferença técnica em resultado financeiro direto, comparando cada material moderno com a cultivar antiga que ele substitui.
| Cultivar moderna | Comparada com | Ganho de desempenho | Retorno adicional por hectare/ano |
|---|---|---|---|
| BRS Paiaguás | BRS Piatã | +7% | R$ 1.035 |
| BRS Carinás | Basilisk | +13% | R$ 483 |
| BRS Zuri | Mombaça | +13% | R$ 483 |
| BRS Tamani | Massai | +9% | R$ 1.593 |
| BRS Quênia | Mombaça | +17% | R$ 3.243 |
| BRS Sarandi | BRS Planaltina | +20% | R$ 1.275 |
Ayres chama atenção para um detalhe importante nessa conta: esses valores se repetem todos os anos em que o pasto permanece na propriedade, geralmente entre cinco e seis anos. Ou seja, o ganho de um único ano já costuma cobrir o custo extra da semente, e o restante do período vira lucro adicional puro.
A produtividade que o Brasil ainda deixa na mesa
Apesar do potencial técnico disponível, a produtividade média da pecuária nacional está em 67,7 quilos de carcaça por hectare ao ano. Cerca de 76% dos pecuaristas, o equivalente a 1,12 milhão de propriedades, ficam abaixo dessa média.
O lado reprodutivo também mostra espaço de sobra. O Brasil tem 65,6 milhões de matrizes de corte aptas à reprodução, segundo a Asbia, mas a taxa de natalidade fica perto de 60% e a taxa de desfrute é de apenas 19%. Isso significa que cerca de 26,3 milhões de matrizes ficam vazias todo ano, gerando despesa estimada entre R$ 800 e R$ 1.200 por cabeça, sem produzir nenhum bezerro em troca.
Se a taxa de desmame subisse de 60% para 80%, o Brasil poderia produzir mais 16,4 milhões de bezerros por ano. Numa fazenda com 100 matrizes, isso equivale a 20 animais a mais, o que representaria uma renda adicional estimada em R$ 68 mil, considerando bezerro de 12 meses com 285 quilos a R$ 3.400.
O boi mudou, e o pasto precisa acompanhar
A evolução do animal já é visível na balança. No sistema tradicional, a carcaça pesava entre 210 e 220 quilos, com abate entre 36 e 42 meses e rendimento de 50% a 52%. No sistema moderno, o peso subiu para a faixa de 290 a 310 quilos, a idade de abate caiu para 18 a 24 meses e o rendimento de carcaça avançou para 54% a 56%.
Para Ayres, esse salto genético só se converte em resultado real se a oferta de alimento acompanhar. O pasto precisa produzir mais, durar mais tempo, responder melhor ao manejo e sustentar um número maior de animais por área, do contrário o potencial do animal moderno fica represado por uma pastagem que não evoluiu na mesma velocidade.
Como decidir a troca da forrageira na sua propriedade
Diante desse cenário, alguns pontos ajudam a orientar a decisão de trocar ou não a cultivar:
- Avalie o tipo de solo, incluindo fertilidade e presença de pedra ou areia
- Considere o sistema produtivo, se é extensivo, intensivo ou de cria e recria
- Compare o custo da semente com o retorno projetado ao longo de cinco a seis anos, não apenas no primeiro ano
- Verifique a resistência da cultivar a pragas, doenças e veranico na sua região
- Consulte a página de cultivares da Embrapa e o aplicativo Pasto Certo antes de decidir
Trocar a forrageira não é decisão simples nem barata no curto prazo, mas os números mostram que manter capim antigo por comodidade tem custo invisível que se acumula ano após ano. Continue acompanhando o Portal da Agroindústria para novidades sobre tecnologia em pastagem e manejo de pecuária de corte.
FAQ – Perguntas Frequentes
P: Quanto as novas forrageiras podem aumentar o ganho por hectare na pecuária?
R: Segundo a Embrapa, cultivares modernas podem elevar o resultado econômico em até 20% por hectare em comparação com materiais desenvolvidos entre 1970 e 1990.
P: Por que a maioria dos produtores ainda usa cultivares antigas de capim?
R: Porque a escolha costuma ser baseada no preço da semente, que representa apenas cerca de 10% do custo total de implantação da pastagem, e não no potencial produtivo do material.
P: Qual cultivar teve o maior ganho financeiro comparado a um capim antigo?
R: A BRS Quênia, que superou o capim Mombaça em 17%, com retorno adicional de R$ 3.243 por hectare ao ano.
P: Para que tipo de solo a BRS Sarandi é indicada?
R: Para solos de baixa fertilidade, pedregosos ou arenosos, principalmente em sistemas de cria e recria em regiões como o Matopiba e o norte de Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.




