Você pode colher mais e ainda assim fechar o ano com menos dinheiro no bolso. É esse o retrato que o setor vive agora: o Brasil caminha para uma safra recorde de grãos, mas o volume produzido não está se traduzindo em rentabilidade maior para quem está na ponta da produção.
A avaliação é da produtora rural e advogada Cristina Gross, sócia-diretora do Grupo Gross e diretora financeira da Aiba. Em análise sobre o ciclo econômico atual do agro, ela chama atenção para um ponto que costuma passar batido: tecnologia e produtividade não blindam ninguém contra margem apertada, custo de produção alto e crédito caro.
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Por que produzir mais não está garantindo lucro maior
A safra brasileira de grãos 2025/26 pode chegar a 360,8 milhões de toneladas, um número recorde. Ao mesmo tempo, o PIB do agronegócio recuou 2,01% no primeiro trimestre de 2026, depois de um crescimento de 12,2% em 2025.
Esse contraste mostra na prática o que muitos produtores já sentem no caixa: dá para produzir mais e, ainda assim, ver a situação financeira piorar. Quando o preço recebido cai e o custo de produção segue alto, o ganho de produtividade sozinho não segura a margem.
Cristina resume bem esse cenário ao afirmar que estar na fronteira tecnológica, mesmo com inteligência artificial e automação, não impede uma crise financeira quando as margens estão sob pressão.
O que os números da soja em Mato Grosso revelam sobre sua margem
Se você planta soja, esse comparativo ajuda a entender por que a conta não fecha como antes. Segundo dados do Imea usados na análise, a saca da oleaginosa em Mato Grosso caiu de R$ 167,95 em maio de 2022 para R$ 106,58 em maio de 2026, uma queda de 36,5%.
No mesmo intervalo, o custo de produção por hectare saltou de cerca de R$ 5,2 mil para R$ 7,7 mil, alta de aproximadamente 48%.
| Indicador (soja MT) | Mai/2022 | Mai/2026 | Variação |
|---|---|---|---|
| Preço por saca | R$ 167,95 | R$ 106,58 | -36,5% |
| Custo por hectare | ~R$ 5,2 mil | ~R$ 7,7 mil | +48% |
Quem ampliou estrutura ou tomou financiamento no auge dos preços das commodities sentiu esse efeito de forma mais dura, já que os investimentos passaram a conviver com juros altos e menos caixa disponível para honrar os compromissos.
Recuperações judiciais no agro quase quadruplicam
Esse aperto financeiro aparece em outro número que chama atenção: os pedidos de recuperação judicial ligados ao agronegócio saltaram de 534 em 2023 para 1.990 em 2025, segundo dados da Serasa Experian citados na análise.
Isso não se explica só pela queda de preço das commodities. Quebra de safra, aumento de custos, crédito restrito e decisões de investimento também entram na conta. O ponto central é que o endividamento precisa ser olhado junto com a capacidade real de gerar caixa, porque até propriedade com patrimônio relevante pode apertar quando a receita não cobre despesa operacional e parcela de financiamento ao mesmo tempo.
Quando o cenário pode começar a virar
Para Cristina, uma safra boa isolada não resolve o problema. A virada de ciclo depende de uma combinação: melhora na relação de troca, queda efetiva dos juros, normalização do crédito, clima favorável e mais eficiência de gestão dentro da porteira.
Na análise, uma recuperação seletiva poderia começar a partir de 2028, beneficiando primeiro quem tem estrutura financeira mais sólida. Uma expansão mais ampla ficaria entre 2029 e 2031, se os fatores econômicos e produtivos avançarem juntos. Isso é um cenário condicionado, não uma previsão garantida, e uma nova alta de commodities sozinha não resolveria dívida acumulada nem falta de liquidez.
O que fazer com essa informação na sua gestão
Diante de margem apertada, o planejamento financeiro passa a pesar tanto quanto o manejo agronômico na sua tomada de decisão. Conhecer o custo real de cada cultura, avaliar o retorno de cada investimento e dimensionar dívida de acordo com sua capacidade de pagamento deixou de ser opcional.
Cristina reforça que produzir com precisão, investir com critério e manter capacidade de reagir vão ser diferenciais cada vez mais decisivos daqui para frente.
Na prática, isso passa por controlar o fluxo de caixa de perto, considerar proteção de preço, avaliar com cuidado qualquer novo financiamento, organizar o planejamento tributário e priorizar investimento com eficiência comprovada, não só o que parece atrativo no momento.
Vale lembrar que esse aperto não fica só na fazenda. Ele chega até o comércio local, a contratação de serviços, a armazenagem e o transporte nos municípios que dependem do agro, e regiões como o Oeste da Bahia e o Matopiba sentem isso de forma direta.
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FAQ – Perguntas Frequentes
P: Por que uma safra recorde não significa lucro maior para o produtor?
R: Porque a rentabilidade depende também dos preços recebidos, do custo por hectare, da geração de caixa e do nível de endividamento, não só do volume produzido.
P: Como o custo de produção da soja evoluiu em Mato Grosso?
R: O custo por hectare subiu cerca de 48% entre maio de 2022 e maio de 2026, enquanto o preço da saca caiu 36,5% no mesmo período, segundo dados do Imea.
P: O que explica o aumento das recuperações judiciais no agronegócio?
R: Além da queda nos preços das commodities, fatores como quebra de safra, custos mais altos, crédito restrito e decisões de investimento contribuem para o avanço dos pedidos.
P: Quando o setor pode ver uma recuperação mais ampla?
R: A análise citada projeta uma recuperação seletiva a partir de 2028 e uma expansão mais ampla entre 2029 e 2031, condicionada à melhora conjunta de juros, preços, clima e gestão.
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